A vaidade não deveria nortear a paixão. Esta, o faz. Enlaça-nos nas fragilidades que derramamos enquanto nossos passos caminham. E foi assim entre nós. Um corpo dos deuses numa alma de menino. Ganhei um homem e adotei uma criança. Ao mesmo tempo, juiz do teu território, aprisionou-me afastando qualquer elemento que infiltrasse desagrados contra teu poder. Até mesmo do meu sangue, fizestes. No pequeno espaço que delimitaste, teria eu a missão de prestar contas dos meus atos a cada segundo, até quando não estavas. Encontrei um pouso com direito a prisão. Entre a violência e a doçura, um amor sem nascimento. A carência empedrada de infância vulnerabilizou meu coração, este que fugia da solidão. Aceitei-te para não me ter em companhia. Não suportava o silêncio da casa, da cama e das horas. E tu, sempre cercando a presa, evitavas perder-me de vista. E ceguei as minhas para ver o caminho somente pelos teus olhos. Amores que cegam são amores que aniquilam a estima. E a minha, havia se perdido no corredor do apartamento pequeno, e eu nunca a encontrava, mesmo de dia. De tantas críticas a rondar minha insensatez, insisti no erro para enfrentar meus opositores. Quanto mais me rebelava, mais me lançava à cova dos tigres. O diálogo se perpetuava em sons agudos, desconexos, contrários, sem entendimento. Mas, continuávamos de mãos dadas como dois apaixonados. Seria mais fácil assumirmos uma doença emocional crônica, ambos órfãos, necessitados de um afeto que o outro não nos podia dar. Mesmo que desejasse. O oco da alma não se preenche com o desejo, nem com a companhia do que se aparenta mais objeto do que este amado. O oco da alma é uma laranja aberta a sangrar num asfalto ao meio dia enquanto os carros passam indiferentes.
Até que tua presença durou, fruto da teimosia de dois adultos infantis. Nós. Depois que nos partimos ao meio, perdi tua metade, e tu a minha. Não sei onde dobram teus ventos, tampouco sabes tu sobre o cheiro do meu ventre. Decidi não parir de novo a brutalidade de um afeto que não poderia ter sido chamado de amor.
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