Portais brancos aportaram teus umbrais, e nem percebi tais penumbras. Teu sorriso largo omitiu a cor do espelho, e me rendi lentamente, como uma dança de ventre, como o namoro do vento com a areia que se levanta, sem saber voar.
Havia em teu gesto a impetuosidade de quem arrancava ervas de outras plantações, como se fosse jardineiro delas. Aceitei teus pareceres, repugnei companhias indiferentes, aprimorei meus sentidos e te obedeci. Nem percebi que o coração fora junto com a minha dependência. Me rendi aos teus domínios como a velha criança sábia, que sabe de palavras, sem discernir batidas de um amor reverberante.
Só sei que me lancei em tuas águas escuras. Observava teus ataques, e optei por não enfrentá-las, defendendo-o de quem ousasse tocar tuas vestes violentamente. De todas as flores do jardim, o cravo, que eras tu, continuavas sendo preferido.
Despertei teus sentimentos, acordei tuas noites, enveredei por teus segredos e os revelei no centro do altar, antes do casamento. Como pude sonhar com uma união entre siameses, se eu desejava a maçã mais doce, e tu também? Tínhamos que ter desejos opostos para um encaixe perfeito, mas a perfeição do teu desejo não trazia em minha natureza, a receita das tuas necessidades.
Dentro da casa de Maria, entre as rezas para Maria e os sonhos de Maria, o silêncio da casa se fazia mais acolhedora do que tua indiferença a mim em terras estranhas. Levou-me ao centro da maca, da dor, da cabeça jogada na sala escura, sem direito a respostas.
E nos fazemos poesias. E as poesias eram nossas filhas. Nos relatávamos nelas, nos lançávamos em calabouços corajosamente em busca de revelações astrais, do outro que não se avizinha. Traçávamos planos de revelação, e findávamos sempre sós, abraçados, eu a saber dos meus sentidos, e tu arvorando-se em abrir pesadas portas de ti.
Tornei-me após tantas mortes, teu divisor de águas, e te revelei a ti mesmo. Se reconheces isto, pouco importa agora que nos despedimos sem funerais. A morte mais sentida é aquela que se antecipa ao corpo, e se despede do próprio amor incondicional. Mas, te condicionastes a outrem, que não eu, e fiquei na estrada observando os cavalos, as águias nos céus, e eu, pantera ferida, a procura de abrigo.
Nunca soubestes de mim. Se tivesses sabido, não terias agido como um carrasco de ti mesmo, apunhalando-me em ti. De ira, me fiz em ti mesmo, e repeti tua cena, para sentir teu sabor. Puro asco, este tempero que se transformou em água insossa, sem esperança de voltar ao pote.
Viemos do interior do interior, e do interior que nos leva ao interior fragmentado da desunião deste desenlace. Poderia ser perfeito se não houvesse no caminho, tantos labores inesperados.
O homem é a sua ambição, e um coração tomado deste, sempre saberá em desamor. Fui lançada ao léu, em tempo incerto enquanto batia tua porta, e não estavas a espera.
Perpetuei sentenças, vociferei nas ruas os teus dizeres, e me arrependi. Deveria ter bebido do silêncio. Achei que não merecias tubos de fidelidades, se me deixastes agonizando.
Me feriste no olho, e eu te feri na fronte. Me jogaste no chão, e eu te lancei pra longe;rasgaste todos os meus versos, e eu não aceitei mais um verbo da tua poesia.
Permanecemos assim, indiferentes, como dois seres desconhecidos, a saber de nossas náuseas, sem desejar encontrar no festim, um traço de nossas quimeras.
Se queres assim, danço contigo o passo da tua dança.
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