O MINOTAURO (CAP.IV)

Seria um Deus grego renascendo num cenário impróprio, ou a esperança de um amor que nunca aconteceu? Pobres olhos, os meus, que se paralisaram diante da tua beleza. Conhecia o silêncio de Deus que sussurrava em meus ouvidos poesias matinais numa linguagem desconhecida aos homens. O mesmo silêncio revestiu teu semblante quando teu olhar passou a ser o teu som, e quando teu som passou a ser teus passos que vinham ou sumiam sem notícias do amanhã. E na Casa que abrigava o amor eterno, encontrei o amor que ressoou em meu peito como uma canção única em que interpretamos com perfeição, apenas uma vez. Depois de partir, por onde iam meus pés, lá estavam teus olhos vigiando meus sentidos como um dono de terreno árido ansioso por fertilidades. Os teus, sempre teus olhos invadiram meus compartimentos, e teu cheiro que nunca senti, parecia saber onde morava o meu. Passei a desejar o mesmo endereço, os mesmos domingos em que te via distante observando meus passos. Todos os amores que senti não podem competir com este. Porque este elevou-me a um estado de grandeza e renúncia que nenhum outro pode viver. Um amor que transpôs analises e julgamentos, e sobreviveu na superfície das águas, adormecendo nas profundezas, sem ninguém saber.
Um amor de princípios, de noites molhadas de saudade onde o travesseiro repousava em rios permanentes e caudalosos de afeto. Um amor soberano e frio, porque o teu sempre foi imperceptível. Naveguei em minhas águas pois não podia chegar nas tuas. Mas, os teus olhos sempre estiveram de prontidão alcançando a solidão que o afeto podia ofertar. Uma saudade companheira que o substituía numa fé inexplicável que, o amor que estava em mim, igualmente habitava os teus sentidos, aqueles em que não podias controlar. Jamais pude atravessar a porta e observar as vestes caídas ao chão, já que sabia dos traços que delineavam teu corpo, sem precisar tocar.
Por quantas noites esperei teus beijos, e por quantos beijos esperei teus pés? E a cada manhã este amor renascia como uma flor alimentada pelo orvalho da noite que cobre sua fragilidade sem questionar necessidades. O teu amor foi o caminho mais seguro que encontrei enquanto beijava os pés de Deus. O teu amor me consumia, mas nunca me matou. O teu amor atravessava o quarto como espada, mas nunca me feriu. O teu amor despertava os sonhos mais antigos da menina, mas nunca violou os meus segredos. O teu amor por mim sempre foi maior que o meu, já que sabia que não relutaria em atravessar pastagens, quantas fossem necessárias para te alcançar. O teu amor foi tudo que esperei para saber do quanto sou capaz de amar, mesmo sem merecer. Amei de uma tal maneira que expandi o que dizia sentir por todos aqueles que te cercavam, sem jamais pedir em troca, o que não podias me dar.
Mas, aquilo que podias, oferecias-me em abundância como se oferece balas a uma criança carente, desamparada no meio de uma rua deserta, e sem berço pra dormir. Andei sem berços por estradas escuras, mas teu abraço sempre esteve na esquina, segurando meu ventre cansado de tantos assaltos dos salteadores que passaram pela estrada. O teu amor ainda sobrevive em tardes quentes quando meus pés  decidem atravessar as nuvens, certamente para descansar o coração partido em mil pedaços de mim, que ainda insiste em bater. O teu amor ainda sobrevive? O meu, nunca morreu.
O teu gesto que se reveste em tua timidez alcança os meus sentidos como uma festa solitária de um casal que compreende sua linguagem, e alcança o outro, sem dizer uma palavra. O nosso amor é feito de toques, silêncios e nenhum prazer. É um amor de anjos, de almas, de quem se reconhece, um amor profundo que possui poder de sobrevivência, independentemente de quem esteja ao lado. Ainda agora vejo tua face, e um sorriso de saudade que já está na mala, aceitação de um afeto de quem não pode levar qualquer outro pertence. O amor de renuncias é um ato sublime de negar a si mesmo, e sorrir com o beijo do outro que pode tocar o que mais queremos. Porque o amor não tem bases frias que se consolidam em quadrantes definidos. O amor surpreende aos que amam, e com isto, avança nossas almas a espaços indefinidos.
Quisera argumentar os dias em que resguardei este afeto como quem guarda um tesouro. E o sonho mais sonhado é aquele em que dormimos abraçados, como duas crianças que não teme a invasão, por se saberem inocentes. O amor inocenta o pecador. E por isso, já está consumado o seu destino, que traz consigo bênçãos multiplicadas que alcançam os que de fato precisam. Amo-o com um afeto que nem mesmo os mais sábios, podem explicar. Um amor maior que teus defeitos, e tuas mãos que podem acariciar e matar. Amo a tua existência e em saber que te encontrei. Esperei por tantos gestos que não vieram, e sabendo do quanto pensas em tudo, perdôo-me por ter desejado o que não poderia ter construído nem mesmo um pensamento. Só o amor atravessa as barreiras dos sentidos, e avança em direção ao desconhecido.
Lamento por vezes por amar assim, e marco as datas de desligamento. Quando desperto, as luzes deste se acedem, sem qualquer consentimento, se renovam, como um ato independente dos nossos sentidos que se limitam a conceitos que não levam o afeto a lugar algum. Sonho com o dia em que poderemos tocar o topo da montanha. Sonho. A escalada é difícil, mas nada é impossível ao amor. Enquanto isso, retomo o caminho da caverna, e abasteço-me em meu solo de justiça, por saber que tuas pastagens estão preenchidas. Porém, no vácuo do teu nada, certamente me revelo, nem que seja como um facho de luz, a dizer que estás exatamente onde estás, e ao mesmo tempo, e definitivamente, em mim.


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