O MINOTAURO (capítulo II)

Aquelas pernas sinuosas e másculas ainda dançam em meus sentidos, sem saudades. O mistério que sondava teus pés escravizou-me a eles, e me lancei como samaritana sedenta de cuidados aos movimentos dos teus olhares que se escondia em teus bonés. Tuas mãos soltas no ar  embaraçaram meus sentidos, e não resisti a tua distância. Foram dias de agonias, a tua espera. Desembrulhei meus pedaços em teus braços, sem medir os pesos das pagas que viriam depois das mortes de sentidos que teus beijos provocavam. Por quanto tempo nossas línguas dançaram juntinhas, mesmo após a música parar de tocar?  E por quantos minutos nos expomos no carro em movimento, deixando amigos e inimigos em estado de desagrado, estupefatos com nossa ousadia em não ignorar os hormônios que se conheciam e se reconheciam naquele exato lugar? Não nos importamos com nada, e continuamos entregues como dois apaixonados assustados que não sabiam se o amanhã nos traria benesses. Depois da dança os dias passaram a ser teus, e a angústia, toda minha. Meu corpo pedia o teu, enquanto minha alma sentia-se cortada em pedaços pequenos a cada notícia que chegava aos meus ouvidos, sobre os teus comprometimentos.  Que adiantou? De nada. Estava eu entregue a sonhos onde tu protagonizavas os papéis principais, e eu me lançava na fronte das tuas espadas, como vítima a lançar-se para a morte. O vírus que te representava já estava ocupando todos os meus espaços, e o leito se transformou em noites intermináveis de saudades, e desejo de estar contigo. A luz tênue do Interior cobria nosso enlace, e o orvalho da noite fria do sertão construía lentamente o cenário desta paixão. Propositalmente sumias dos meus olhos, e me rebelavas a debater meus olhos de um lado para o outro, a procura dos teus pés, os primeiros a me aprisionar. Como um minotauro, surgias do nada a cercar tua presa vulnerável, presa no espaço que repousava, e depois sumias neste mesmo nada, a testar minha paciência. Teus cálculos já estavam compostos em teus sentidos, e sabias onde querias chegar. Até que não resistimos, e nos lançamos vítimas um do outro, nas loucuras dos nossos sentidos físicos, e não nos resistimos mais. Saístes ileso, por seres o homem, pensava eu. E eu? Sendo o personagem mais duro na aparência, e por conseguinte, mais frágil, teu cheiro me adoeceu numa dependência que atravessou os segundos das horas e horas que não passavam. No dia oficial da minha lágrima, a dor já não cortava tanto. Inflava como balão gigante sem sair do lugar. Entre o líquido de sal a escorrer na maquiagem, e o peso da dor de uma montanha no centro do peito, sua imagem deitava em planícies refrescantes que não mostravam o que se escondia no teu sono. Estava atrelada aos teus pés, e já não sabia onde andavam os meus. Nenhuma dor tornou-se tão cruel quanto a tua primeira traição, já que depois desta, outras viriam no ciclo da naturalidade do teu ser. Quando penso que sobrevivi a tantas punhaladas, duvido ser apenas humana, e estar diante de uma página branca, relatando com certa tranqüilidade, o inquérito deste amor. As ruas ficavam alagadas das lágrimas que já derramei por esta paixão. As noites testemunharam a visita indesejável da solidão, quando  tu sumias com desconhecidos, a procura de fantasias que meus olhos ingênuos não poderiam te dar. O que fizestes de mim, amado meu? Como podias abandonar um amor tão grande que ultrapassava meu tamanho e meu canto, por igual? O que fizestes do meu coração quando te dei a chave original das suas entradas? Por que me assassinastes, se tudo que te dei envolvia o meu maior sacrifício? Teus toques, teus sons ressonavam minhas noites quando partias para as montanhas em busca de afetos perdidos. Demoravas em vir ao meu encontro, e me deixavas solitária a derramar prantos em bacias furadas que me impediam de medir as dores que me ofertavas, no lugar do amor. Até que nasceu em mim, o que não havia sido contado na previsão deste afeto. Lancei-me para longe dos teus pés, ou fostes tu que me feristes com tuas mãos abraçando outras desconhecidas? Só sei que fugi de tua presença em busca da amiga solidão, sempre companheira, e tentei a cura, sem ingerir remédio algum. A saliva doía, o sono doía, o alimento não tinha sabor nem mesmo amargo, e a água parecia uma torrente de tempestade lavando um corpo cansado de embates sem vitórias. Como me feristes, amado meu! O tempo em que ficastes longe construiu um palácio de saudades, saudades do algoz amado. Até que um dia voltastes com teus pés em direção aos meus, e retomamos a continuidade dos erros, que só um amor impensado pode promover. De certo modo, o mundo pertence aos impensados. E estávamos nós entregues aos riscos de um amor sem tempo de validade, e sem contratos assinados. Seria um amor em risco, de risco e pelo risco. E tudo que este amor viveu, estava sempre em movimento sobre a linha da bailarina do circo que dançava no alto, sem pensar no risco da queda, já que a rede garantia sua vida. Mas, o amor que nos unia, não garantia nada. O fruto nasceu também no meio das dores, e desfrutamos juntos do crescimento, até que tuas asas não aceitaram as minhas, e nem as minhas confiavam nas tuas, já que teus créditos já não existiam desde o dia em que a primeira traição sentenciou o teu caráter afetivo, e não pude mais descansar na confiança que jazia morta, no centro do meu peito, por ti. Fostes embora levado por outros seios, o que confirmaram no dia em que nos despedimos para sempre, até os dias de hoje, quando nos tocamos numa tarde quente e sem afetos, já que não nos reconhecíamos mais. Partimos vazios como entramos, e onde mora a traição, o amor bate asas rumo a outras moradas. Vez ou outra,  fico a pensar em tardes de inverno, como consegui sobreviver a tamanha dor. O minotauro feriu cada parte dos meus órgãos vitais, enquanto beijava minha fronte e elogiava minhas virtudes. Deitei com o que mais amei.  Um assassino de corações, já que até os dias de hoje, perdi o caminho que me leva ao gosto saboroso do amar confiantemente.  Temo tratar-se de um outro minotauro.


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