a loba águia

                                   
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  A idade da loba não nos atenta apenas ao prazer com maestria, mas a todas as formas de reflexão sobre si mesmo, o outro e o que não existe ao alcance de um olhar. A idade da loba é um convite ao topo solitário de uma montanha numa noite de luar prenha de luz, a produzir uivos de anseio e dor, e ao amanhecer do dia, vê-se águia em ninho vazio. A idade da loba abraça a criança escondida no canto da sala que ainda teme o bicho papão. Ela desconfigura todas as paixões vividas e elege cada uma, em seu devido lugar. Chora por todas elas sem negar suas sentenças. É na idade da loba em que tudo fica pronto: o corpo, a mente e o espírito.
Entretanto, suas patas, mesmo feridas, conseguem alcançar a mais íngreme montanha, e nem todo lobo consegue alcançá-la. Por esta razão, a loba permanece só, sem qualquer contágio de solidão. No tempo em que a loba corria para as caças cercada de lobos, a solidão rachava em seu couro resistente. Os lobos se distraiam no caminho, e só percebiam sua presença para a devida procriação. É que os lobos só sabiam amar suas necessidades. Agora que a loba traz consigo o triunfo dos dias enriquecidos de prantos e superações, resta-lhe contemplar a planície com um olhar multicolorido.
Ela desce apenas para pequenas caças que ganham caldo tão somente pela lei da sobrevivência. Não fosse isto, não desceria para mais nada.
Enquanto um lobo raro não a alcança, ela escreve memórias com as unhas e retira a tinta da lágrima e do sangue que caem de si. O pelo, a pele e o paladar intensificam mudanças para outra estação. A loba sabe do caminho estreito.
Enquanto isso, entre ser águia e loba, ela ainda acredita em ilusões – adora brincar nestes parques – pois crê que os cavalos brancos possuem asas e trazem cavaleiros montados que haverão de subir para contar ao seu lado, todas as estrelas do céu. Para não perder a conta, a loba da noite e a águia do dia reúnem com cuidado em pedrinhas esquecidas, as estrelas que aparecem diante do seu olhar. A loba guarda a águia em seu casulo, e sendo as duas uma só, caso não apareça nem o lobo, nem o cavalo branco ou o cavaleiro, a loba sabe que ainda lhe sobram estrelas.
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