Postagens

Mostrando postagens de julho, 2011
Quase imperceptível sua presença foi sendo notada por palavras sem nexo que me faziam no ar. Até perceber a insistência do teu canto sobre o meu. Querias algo. Deixa-me quietinha, estou ferida. Sai de campos de batalha em grandes guerras internas. Não suportaria outra afronta. Se não vens para salvar-me, não atires a misericórdia de uma morta. Se não vens para que eu ouça todas as palavras merecidas de afeto, caminha adiante em busca de outro monte, e abandona este campo o quanto antes. Não maltrates uma alma acamada. Um coração galopante que ancorou para não ser atingido por flechas desconhecidas. Quase nada te vejo. Ser engraçado não é o mesmo que ser belo, mas ser belo não é o mesmo que ser tudo. Algo em teus olhos e lábios chama os meus. Algo. E se for uma cilada? Mais uma em meu caminho terei feito um museu delas. Cansei. Não me canses. Não me enfades ainda mais. Quero-te. Não quero. Mas, quero-te. Nem sei se quero. Tem sido assim. Fico a espera do destino a espreita para saber se...
Anjos descem dos céus? Anjos vivem nele. Num sopro viestes ocupar minhas noites de luta entre cartas diárias de amor que me mandavas. A distância aumentava ainda mais o desejo da presença. O teu desejo por mim amparou-me na espera desta confiança, e aprendi a amar-te pelo teu amor. A tua angelitude me comovia e a doçura das tuas palavras alimentavam minhas lutas de sobrevivência. Como podias amar uma fêmea que carregava no ventre um filho que não era teu? Quando chegastes o feto já estava em mim, e eu despedaçada de sentimentos incompletos, vagava a procura de um porto seguro. E como um marinheiro aportastes com teu navio, oferecendo-me mil iguarias jamais vistas pelos meus olhos. Encantei-me pelo teu encanto em encantar. Me deixei levar por tua paixão de fã trazendo as mãos a câmara que registrava minhas primeiras sonoridades em frente ao mar. Qual seria o problema de dar oportunidade a um homem bom de tornar-se anjo da minha gestação solteira, enquanto debulhava poesias de amor aos m...
A vaidade não deveria nortear a paixão. Esta, o faz. Enlaça-nos nas fragilidades que derramamos enquanto nossos passos caminham. E foi assim entre nós. Um corpo dos deuses numa alma de menino. Ganhei um homem e adotei uma criança. Ao mesmo tempo, juiz do teu território, aprisionou-me afastando qualquer elemento que infiltrasse desagrados contra teu poder. Até mesmo do meu sangue, fizestes. No pequeno espaço que delimitaste, teria eu a missão de prestar contas dos meus atos a cada segundo, até quando não estavas. Encontrei um pouso com direito a prisão. Entre a violência e a doçura, um amor sem nascimento. A carência empedrada de infância vulnerabilizou meu coração, este que fugia da solidão. Aceitei-te para não me ter em companhia. Não suportava o silêncio da casa, da cama e das horas. E tu, sempre cercando a presa, evitavas perder-me de vista. E ceguei as minhas para ver o caminho somente pelos teus olhos. Amores que cegam são amores que aniquilam a estima. E a minha, havia se perdido...
Portais brancos aportaram teus umbrais, e nem percebi tais penumbras. Teu sorriso largo omitiu a cor do espelho, e me rendi lentamente, como uma dança de ventre, como o namoro do vento com a areia que se levanta, sem saber voar. Havia em teu gesto a impetuosidade de quem arrancava ervas de outras plantações, como se fosse jardineiro delas. Aceitei teus pareceres, repugnei companhias indiferentes, aprimorei meus sentidos e te obedeci. Nem percebi que o coração fora junto com a minha dependência. Me rendi aos teus domínios como a velha criança sábia, que sabe de palavras, sem discernir batidas de um amor reverberante. Só sei que me lancei em tuas águas escuras. Observava teus ataques, e optei por não enfrentá-las, defendendo-o de quem ousasse tocar tuas vestes violentamente. De todas as flores do jardim, o cravo, que eras tu, continuavas sendo preferido. Despertei teus sentimentos, acordei tuas noites, enveredei por teus segredos e os revelei no centro do altar, antes do casamento. Como ...

O MINOTAURO (CAP.IV)

Seria um Deus grego renascendo num cenário impróprio, ou a esperança de um amor que nunca aconteceu? Pobres olhos, os meus, que se paralisaram diante da tua beleza. Conhecia o silêncio de Deus que sussurrava em meus ouvidos poesias matinais numa linguagem desconhecida aos homens. O mesmo silêncio revestiu teu semblante quando teu olhar passou a ser o teu som, e quando teu som passou a ser teus passos que vinham ou sumiam sem notícias do amanhã. E na Casa que abrigava o amor eterno, encontrei o amor que ressoou em meu peito como uma canção única em que interpretamos com perfeição, apenas uma vez. Depois de partir, por onde iam meus pés, lá estavam teus olhos vigiando meus sentidos como um dono de terreno árido ansioso por fertilidades. Os teus, sempre teus olhos invadiram meus compartimentos, e teu cheiro que nunca senti, parecia saber onde morava o meu. Passei a desejar o mesmo endereço, os mesmos domingos em que te via distante observando meus passos. Todos os amores que senti não pod...

O MINOTAURO (CAPÍTULO III)

Odiei-te a primeira vista. E nem sabia da moeda dos dois lados. Mantive meus olhos ao chão já que tua presença causava mal estar ao meu espírito. Sorrateiro, sabias induzir os que andavam próximos a mim, e quando despertei sem sono, já estava em teus imensos braços. O primeiro beijo molhou o chão do pequeno espaço que amparava o cenário de um colchão na sala principal. Beijo longo e demorado como uma noite de inverno, e uma explosão de paixão e desejo nos acobertaram sem licenças. O que sabia de tua vida? Sabia apenas do teu beijo, da temperatura exata da tua língua, e da tua fome de mim. Paixão é febre violenta sem tempo de partida, e depois do enlace extra- oficial, procurava o porto do coração com suas batidas, e lá estava o meu, a procura do teu. Minhas cantigas na beira do mar tornaram-se tuas, além das minhas vestes, meus cabelos, meu silêncio, minhas lágrimas. Tornei-me escrava faminta do alimento que somente tu poderias dar-me. Acreditei na força que nos unia, e   a força e...

O MINOTAURO (capítulo II)

Aquelas pernas sinuosas e másculas ainda dançam em meus sentidos, sem saudades. O mistério que sondava teus pés escravizou-me a eles, e me lancei como samaritana sedenta de cuidados aos movimentos dos teus olhares que se escondia em teus bonés. Tuas mãos soltas no ar   embaraçaram meus sentidos, e não resisti a tua distância. Foram dias de agonias, a tua espera. Desembrulhei meus pedaços em teus braços, sem medir os pesos das pagas que viriam depois das mortes de sentidos que teus beijos provocavam. Por quanto tempo nossas línguas dançaram juntinhas, mesmo após a música parar de tocar?   E por quantos minutos nos expomos no carro em movimento, deixando amigos e inimigos em estado de desagrado, estupefatos com nossa ousadia em não ignorar os hormônios que se conheciam e se reconheciam naquele exato lugar? Não nos importamos com nada, e continuamos entregues como dois apaixonados assustados que não sabiam se o amanhã nos traria benesses. Depois da dança os dias passaram a ser te...

O MINOTAURO

Podes tu imaginar a caminhada insana em que percorrerei por causa de ti? Logo eu que tenho lutado contra mim, a tapas, para encaminhar meus pés em contrários teus. O que fizeste foi imperdoável mesmo diante da conta de setenta vezes sete. É muita conta que se torna de pouca monta diante da minha dor. O que sabes de dor, e de maneira particular, desta que só uma mulher pode sentir? A tua crueldade ampliou tuas crateras, digo eu. De anjo, meu templo passou a vê-lo como o monstro temido dos filmes de terror em que fechava os dedos de infância antecipando o sofrimento da madrugada de sono incerto que teria que enfrentar. A tua doçura escondeu-me os seres peçonhentos de tua alma. Por que fizestes isto, logo comigo, amiga de tantos segundos eternos? Carrego em meus ombros um por que interminável de perguntas sem respostas, onde elas, mesmo diante de mim, não terão poder algum de convencimento. A confiança foi triturada no asfalto quente das tuas precipitações. O que conheces do amor, amor me...

a loba águia

                                    ·            A idade da loba não nos atenta apenas ao prazer com maestria, mas a todas as formas de reflexão sobre si mesmo, o outro e o que não existe ao alcance de um olhar. A idade da loba é um convite ao topo solitário de uma montanha numa noite de luar prenha de luz, a produzir uivos de anseio e dor, e ao amanhecer do dia, vê-se águia em ninho vazio. A idade da loba abraça a criança escondida no canto da sala que ainda teme o bicho papão. Ela desconfigura todas as paixões vividas e elege cada uma, em seu devido lugar. Chora por todas elas sem negar suas sentenças. É na idade da loba em que tudo fica pronto: o corpo, a mente e o espírito. Entretanto, suas patas, mesmo feridas, conseguem alcançar a mais íngreme montanha, e nem todo lobo consegue alcançá-la. Por esta razão, a loba permanece só, sem qualquer contágio de solidão. No...