Anjos descem dos céus? Anjos vivem nele. Num sopro viestes ocupar minhas noites de luta entre cartas diárias de amor que me mandavas. A distância aumentava ainda mais o desejo da presença. O teu desejo por mim amparou-me na espera desta confiança, e aprendi a amar-te pelo teu amor. A tua angelitude me comovia e a doçura das tuas palavras alimentavam minhas lutas de sobrevivência. Como podias amar uma fêmea que carregava no ventre um filho que não era teu? Quando chegastes o feto já estava em mim, e eu despedaçada de sentimentos incompletos, vagava a procura de um porto seguro. E como um marinheiro aportastes com teu navio, oferecendo-me mil iguarias jamais vistas pelos meus olhos. Encantei-me pelo teu encanto em encantar. Me deixei levar por tua paixão de fã trazendo as mãos a câmara que registrava minhas primeiras sonoridades em frente ao mar. Qual seria o problema de dar oportunidade a um homem bom de tornar-se anjo da minha gestação solteira, enquanto debulhava poesias de amor aos meus ouvidos? Logo eu que não tinha quase nada a oferecer-te. Foram dezenas de cartas, e as guardo até hoje em uma pasta exclusiva, porque o amor de ninguém deveria ser tratado como lixo. Jamais fiz tal gesto com tuas palavras. Amores vão, amores vem, mas tuas cartas permanecem vivas e conservadas porque os amores são elos interligados, e um não existiria, sem a antecedência do outro que preparou o caminho. Ensinaste-me a ser doce. Sempre fui defensiva, arteira e desconfiada com os homens. E sou até aos dias de hoje, sem previsão de abandono do cargo enquanto respirar. Tu me inspiravas confiança. A tua inocência causava-me alegria, e o feto recebia este alimento. Mesmo não sendo teu, ajudaste a nascer com a serenidade dos anjos, o anjo que hoje é meu filho. E tu surgistes com a missão de me proteger de quem me amava com ciúmes, posse e controle. E eu queria voar. Minhas asas gigantes impossibilitavam qualquer possibilidade de companhia. Até que me despedi de ti, anjo. Mesmo sendo um perfeito recheio de virtudes, não te amei o suficiente para vencer a distância física e abdicar do prazer de estar tão somente com meu filho. Partistes, e deixei teu coração partido. Os anos passam, lembro de ti com gratidão. E por ela, permaneço guardando a pasta, com as tuas cartas de amor.
O MINOTAURO (CAP.IV)
Seria um Deus grego renascendo num cenário impróprio, ou a esperança de um amor que nunca aconteceu? Pobres olhos, os meus, que se paralisaram diante da tua beleza. Conhecia o silêncio de Deus que sussurrava em meus ouvidos poesias matinais numa linguagem desconhecida aos homens. O mesmo silêncio revestiu teu semblante quando teu olhar passou a ser o teu som, e quando teu som passou a ser teus passos que vinham ou sumiam sem notícias do amanhã. E na Casa que abrigava o amor eterno, encontrei o amor que ressoou em meu peito como uma canção única em que interpretamos com perfeição, apenas uma vez. Depois de partir, por onde iam meus pés, lá estavam teus olhos vigiando meus sentidos como um dono de terreno árido ansioso por fertilidades. Os teus, sempre teus olhos invadiram meus compartimentos, e teu cheiro que nunca senti, parecia saber onde morava o meu. Passei a desejar o mesmo endereço, os mesmos domingos em que te via distante observando meus passos. Todos os amores que senti não pod...
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