O MINOTAURO (CAPÍTULO III)
Odiei-te a primeira vista. E nem sabia da moeda dos dois lados. Mantive meus olhos ao chão já que tua presença causava mal estar ao meu espírito. Sorrateiro, sabias induzir os que andavam próximos a mim, e quando despertei sem sono, já estava em teus imensos braços. O primeiro beijo molhou o chão do pequeno espaço que amparava o cenário de um colchão na sala principal. Beijo longo e demorado como uma noite de inverno, e uma explosão de paixão e desejo nos acobertaram sem licenças. O que sabia de tua vida? Sabia apenas do teu beijo, da temperatura exata da tua língua, e da tua fome de mim. Paixão é febre violenta sem tempo de partida, e depois do enlace extra- oficial, procurava o porto do coração com suas batidas, e lá estava o meu, a procura do teu. Minhas cantigas na beira do mar tornaram-se tuas, além das minhas vestes, meus cabelos, meu silêncio, minhas lágrimas. Tornei-me escrava faminta do alimento que somente tu poderias dar-me. Acreditei na força que nos unia, e a força existia na lágrima que caia dos teus olhos, nas tuas fugas de pijama para ouvir minha voz nas madrugadas silenciosas da Atalaia, na rosa que comeste para provar o quanto me amavas. E quanto mais dizias deste amor, mais sabíamos que não podíamos nos amar. Quanto mais meus pés fugiam dos teus, mais os teus insistiam em buscar-me covardemente, sabendo que não relutaria aos teus beijos, e a tua paixão. Por quanto tempo escondestes de mim, a tua face? Amei-te sem saber detalhes dela, e ao ver-te transparente diante de mim, depois de tantos dias longe da tua presença, nasceu a sensação de amar dois em um só. De dor e paixão se fez este amor; de dor e saudade, se fez este amor; de presença e distância, de luta e de morte. Quisera eu que o amor morresse quando morrestes também. No escuro do quarto amigo, morri por horas de dor e lágrimas que não paravam de correr, molhando minha face como um funeral interminável que parecia não ter fim. Não sei se te peço perdão pelas fugas de ti, ou se peço a Deus por tê-lo amado tanto. As águas escuras do poço abrigaram a tua paixão profunda como um rio caudaloso, e nas noites em que me achavas em casa materna, atravessavas a fronteira das serras, em busca do meu peito. Quantos puderam me amar assim... Amastes a mim, ou a juventude que cheirava em meu corpo, em meus cabelos finos e loiros, e na voz rouca que alcançava o teu coração? Me amarias agora com as rugas que carrego, os amores caídos no meio da sala, os filhos que não são teus, o tempo que se perdeu? Me amarias se a vida te tivesse dado a chance de continuar? A tua dor tornou-se minha, desde o dia em que senti no exato momento da tua ida, um corte rompendo minha garganta como uma flecha a me deixar sem ar. Imenso amor em mim a sobreviver na lembrança. Só o tempo mostra o tamanho de um amor que não morreu com o que morre. Não podias ser de todos, amado meu. Tinhas que escolher entre a flor e o perfume. A tua alma optou pela morte.
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