O MINOTAURO

Podes tu imaginar a caminhada insana em que percorrerei por causa de ti? Logo eu que tenho lutado contra mim, a tapas, para encaminhar meus pés em contrários teus. O que fizeste foi imperdoável mesmo diante da conta de setenta vezes sete. É muita conta que se torna de pouca monta diante da minha dor. O que sabes de dor, e de maneira particular, desta que só uma mulher pode sentir? A tua crueldade ampliou tuas crateras, digo eu. De anjo, meu templo passou a vê-lo como o monstro temido dos filmes de terror em que fechava os dedos de infância antecipando o sofrimento da madrugada de sono incerto que teria que enfrentar. A tua doçura escondeu-me os seres peçonhentos de tua alma. Por que fizestes isto, logo comigo, amiga de tantos segundos eternos? Carrego em meus ombros um por que interminável de perguntas sem respostas, onde elas, mesmo diante de mim, não terão poder algum de convencimento. A confiança foi triturada no asfalto quente das tuas precipitações. O que conheces do amor, amor meu? O que conheces da paixão, amigo amado? Não conheces nada. Nem mesmo o objeto que dizes amar, porque vejo o que amas como um objeto sim, pois sei que tratas tuas conquistas como brinquedos que poderão ser desprezados a qualquer momento. Criança cruel que rouba para si os parques que encontras, e destróis castelos de areia dos colegas mais amados. A tua imprudência violenta a santidade em que te nomeei um dia. A tua coroa foi destituída desde o dia que fizestes de mim, arcabouço dos teus crimes de pelejas, onde enfrentavas a supremacia do espaço alheio, alimentando teus vácuos com o pouco ar do amigo agonizante. O que fizestes  amado meu? Por que  não me ouvistes quando alertei das armadilhas que possivelmente teus pés tropeçariam? Pode ser que estejas ainda a caminhar sobre campos verdejantes, cheiro de flores suaves, contudo, não duvides que a lama logo  surgirá na escuridão, e os viajantes só sobreviverão a tamanhas intempéries, se houver em si, o doce cálice de Deus. Mas, não quisestes entrar no tempo Dele, com sua figuração longa e cautelosa. Preferistes o teu tempo, franqueado na ausência de uma proteção regular. Lamento por ti, amado meu. Lamento. O caminho aberto foi escolha tua e de quem compactuou com este crime, que chamam de amor, mas o amor é um livro que só se conhece, depois de aberto por completo. E tu não sabes ainda com quem te deitas, o que cheiras, e o que mora dentro do que trai sem revelias. Lembro das tuas lágrimas a molharem meu ventre coberto, e das palavras despejadas com sabor de segredos em meus ouvidos, quando abrigavas tua solidão em meus seios, em busca de consolos noturnos. Nunca nos vimos de fato. Sentíamos nossas peles unidas numa necessidade sobre humana de nos acharmos nestas dores, e comungarmos de companhias e alimentos paulatinos, em que nos amparávamos como dois irmãos, em noites de afeto. Depois disto, o que fizestes, sem contar dos erros anteriores a esta sentença? Colocaste um amor no peito, e uma faca de pontas enormes em minha alma, deixando-a no meio da rua, diante de um sol a dançar cores de agonia e de morte súbita, e neste momento, enquanto escravinho linhas destroçadas de infelicidade, tento levantar um osso de mim, na esperança que os demais façam o mesmo, porque me crucificaste sem pensar no bem que nos compomos em companhia e paz. Não pensaste.  


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